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Nov 09

O que direi das colinas inquietas que despem a imensa planície até à tua nascente de carne? Direi que são quentes e cheias e lentas e brancas - e que eu fujo, fujo delas, que me sabem a mãe e me retêm no berço.

publicado por nanferdinan às 15:20

Um de nós suicidou-nos,

meu amor,

teve a amabilidade

de nos extinguir.

Um de nós sofreu-nos,

chorou-nos

no desamparo aflitivo da alma.

Um de nós

reabriu todas as dores,

incendiou todas as feridas,

ferveu todas as lágrimas

que não nos quiseram os olhos.

Um de nós, meu amor,

revisitou-nos

o inferno doce

da nossa incerteza.

Decantou toda a angústia,

remexeu toda a tragédia,

apunhalou todo o suplício

que se debatia,

moribundo,

no terreiro da nossa batalha.

Um de nós venceu-nos,

expulsou-nos de dentro de nós,

terminou-nos,

ruiu-nos,

eliminou-nos do tempo,

do espaço, do vento,

fuzilou-nos

com tiros de fúrias e raivas,

imolou-nos

no nosso próprio fogo doente,

sim,

no nosso fogo arrefecido

porém quente,

naquele fogo sitiado

porém nuclear, porém medonho,

porém de tentáculos ardentes,

porém insano,

imoral,

esse fogo que nos fez,

que nos criou,

do qual saímos sempre cinzas,

sim,

esse fogo doido,

esse fogo apagado

porém vivo,

esse fogo bandido,

mortífero,

que se emboscava

no ventre exaltado

das nossas memórias

por pagar.

Um de nós

desceu ao arquivo morto

dos nossos actos primordiais,

dos nossos desejos intactos,

e perfurou um a um,

ávido,

os olhos inocentes

de todos os nossos sonhos de amor.

Um de nós cegou-nos,

teve a piedade

de nos escurecer

a morte,

a visão arrasadora da nossa indignidade,

da nossa perfídia,

da nossa queda livre

no chão seco onde se esboroam

os amantes que traem as suas almas.

Um de nós,

meu amor,

varreu-nos da história,

dissolveu-nos no nada,

devolveu-nos àquele lugar sagrado

onde, extremamente puros,

nunca existimos.

Por isso, meu amor,

um de nós,

hoje,

matou-nos.

publicado por nanferdinan às 14:47

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