12
Nov 09

O que direi das colinas inquietas que despem a imensa planície até à tua nascente de carne? Direi que são quentes e cheias e lentas e brancas - e que eu fujo, fujo delas, que me sabem a mãe e me retêm no berço.

publicado por nanferdinan às 15:20

Um de nós suicidou-nos,

meu amor,

teve a amabilidade

de nos extinguir.

Um de nós sofreu-nos,

chorou-nos

no desamparo aflitivo da alma.

Um de nós

reabriu todas as dores,

incendiou todas as feridas,

ferveu todas as lágrimas

que não nos quiseram os olhos.

Um de nós, meu amor,

revisitou-nos

o inferno doce

da nossa incerteza.

Decantou toda a angústia,

remexeu toda a tragédia,

apunhalou todo o suplício

que se debatia,

moribundo,

no terreiro da nossa batalha.

Um de nós venceu-nos,

expulsou-nos de dentro de nós,

terminou-nos,

ruiu-nos,

eliminou-nos do tempo,

do espaço, do vento,

fuzilou-nos

com tiros de fúrias e raivas,

imolou-nos

no nosso próprio fogo doente,

sim,

no nosso fogo arrefecido

porém quente,

naquele fogo sitiado

porém nuclear, porém medonho,

porém de tentáculos ardentes,

porém insano,

imoral,

esse fogo que nos fez,

que nos criou,

do qual saímos sempre cinzas,

sim,

esse fogo doido,

esse fogo apagado

porém vivo,

esse fogo bandido,

mortífero,

que se emboscava

no ventre exaltado

das nossas memórias

por pagar.

Um de nós

desceu ao arquivo morto

dos nossos actos primordiais,

dos nossos desejos intactos,

e perfurou um a um,

ávido,

os olhos inocentes

de todos os nossos sonhos de amor.

Um de nós cegou-nos,

teve a piedade

de nos escurecer

a morte,

a visão arrasadora da nossa indignidade,

da nossa perfídia,

da nossa queda livre

no chão seco onde se esboroam

os amantes que traem as suas almas.

Um de nós,

meu amor,

varreu-nos da história,

dissolveu-nos no nada,

devolveu-nos àquele lugar sagrado

onde, extremamente puros,

nunca existimos.

Por isso, meu amor,

um de nós,

hoje,

matou-nos.

publicado por nanferdinan às 14:47

09
Nov 09

Hoje

deixei-me

morrer-te 

publicado por nanferdinan às 18:57

05
Nov 09

Devíamos talvez ter adormecido um no outro,

e enquanto dormíssemos,

enquanto fôssemos inócuos,

deixássemos que o tempo

se esvaísse de nós.

Porque passavas a vida a morrer-me,

habituei-me a amar os teus longes olhos

imersos nas trevas,

enquanto assistíamos,

quietos, ilúcidos,

ao cortejo fúnebre do nosso amor.

Devíamos talvez ter morrido um no outro,

e enquanto morrêssemos,

enquanto fôssemos cadáveres,

deixássemos que o tempo

se arrependesse de nós.

Porque passava a vida a amar-te a morte,

tu criaste o hábito de não me existires,

serenamente dissimulada,

enquanto assistíamos,

quietos, ilúcidos,

ao cortejo fúnebre do nosso amor.

Devíamos talvez ter crescido um no outro,

e enquanto crescêssemos,

enquanto fôssemos vingando,

deixássemos que o tempo

tomasse conta de nós.

publicado por nanferdinan às 16:47

Dir-te-ia

que me levasses daqui

para longe, tão longe de ti,

se eu não fugisse de mim

para perto, tão perto daqui.

(Que nestas manhãs acordadas cedo

te ausentas do meu poema

e do meu corpo

para longe, tão longe

dos lugares comuns

ao nosso amor.)

publicado por nanferdinan às 16:38

Naquele tempo, os teus lábios frequentavam os meus beijos e éramos serpentinos, longos, intermináveis. Lembro-me às vezes de como te sabias minha, tão só minha como a pele dos meus lábios frequentes nos teus beijos. Naquele tempo, lembro-me às vezes, o desejo exilava-se nas metástases do nosso amor e era um passageiro frequente dos teus lábios nos meus beijos serpentinos, longos, intermináveis. Ah, como te sabias minha naquele tempo em que os teus lábios frequentavam as metástases do nosso amor. Ah, como morreram, frequentes, os teus lábios nos meus beijos. Como morreram longos e serpentinos, longos e intermináveis, naquele tempo.

publicado por nanferdinan às 16:33

28
Out 09

Deseja-me,

podes estender os teus longos abraços de fogo,

mulher,

até onde me ardas,

até onde me sejas um inferno,

um pecado mortal,

até onde tomes posse

do meu corpo quente,

ah, tão quente,

até onde me fervas o sangue

e as vísceras

e os ossos se derretam e extingam

no teu vórtice ardente,

até onde me saibas ao fim dos tempos,

até ao cair incendiado do último sol,

até onde o próprio deus

não ouse compadecer-se de nós.

Deseja-me, mulher,

mas não te insistas em mim.

Não te repitas em mim.

Não ecoes em mim.

Deseja-me como uma lâmina no ventre,

como uma ferida aberta,

como uma fúria aberta,

deseja-me lenta, voraz, desperta,

deseja-me atenta ou distraída de mim,

mas não me repitas,

mulher,

não te insistas,

mulher,

deseja-me uma vez,

uma única vez,

deseja-me com um amor sem réplicas,

uma vez só: e depois foge,

e depois corre

com os teus passos mais rápidos de correr,

foge com o teu medo

nos passos do teu instinto,

não me repitas,

não me insistas,

não ecoes em mim,

porque eu não quero,

eu não quero pensar em ti

como se fosses minha,

mulher.

publicado por nanferdinan às 17:13

Tenho o mau hábito de te amar

na luxúria dos meus dedos,

assim lento, lento, lento,

como se o nosso prazer não tivesse um estuário

e o nosso amor,

esse amor desse prazer desses dedos,

fosse a ecografia de um nado-morto.

publicado por nanferdinan às 17:08

Gosto de te ouvir os sons

de me morreres

nos cansaços

do nosso amor

publicado por nanferdinan às 17:05

15
Out 09

Devíamos talvez ter adormecido um no outro,

e enquanto dormíssemos,

enquanto fôssemos inócuos,

deixássemos que o tempo

se esvaísse de nós.

Porque passavas a vida a morrer-me,

habituei-me a amar os teus longes olhos

imersos nas trevas,

enquanto assistíamos,

quietos, ilúcidos,

ao cortejo fúnebre do nosso amor.

Devíamos talvez ter morrido um no outro,

e enquanto morrêssemos,

enquanto fôssemos cadáveres,

deixássemos que o tempo

se arrependesse de nós.

Porque passava a vida a amar-te a morte,

tu criaste o hábito de não me existires,

serenamente dissimulada,

enquanto assistíamos,

quietos, ilúcidos,

ao cortejo fúnebre do nosso amor.

Devíamos talvez ter mirrado um no outro,

e enquanto mirrássemos,

enquanto fôssemos esvanecendo,

deixássemos que o tempo

existisse sem nós.

publicado por nanferdinan às 14:59

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