O que direi das colinas inquietas que despem a imensa planície até à tua nascente de carne? Direi que são quentes e cheias e lentas e brancas - e que eu fujo, fujo delas, que me sabem a mãe e me retêm no berço.
O que direi das colinas inquietas que despem a imensa planície até à tua nascente de carne? Direi que são quentes e cheias e lentas e brancas - e que eu fujo, fujo delas, que me sabem a mãe e me retêm no berço.
Um de nós suicidou-nos,
meu amor,
teve a amabilidade
de nos extinguir.
Um de nós sofreu-nos,
chorou-nos
no desamparo aflitivo da alma.
Um de nós
reabriu todas as dores,
incendiou todas as feridas,
ferveu todas as lágrimas
que não nos quiseram os olhos.
Um de nós, meu amor,
revisitou-nos
o inferno doce
da nossa incerteza.
Decantou toda a angústia,
remexeu toda a tragédia,
apunhalou todo o suplício
que se debatia,
moribundo,
no terreiro da nossa batalha.
Um de nós venceu-nos,
expulsou-nos de dentro de nós,
terminou-nos,
ruiu-nos,
eliminou-nos do tempo,
do espaço, do vento,
fuzilou-nos
com tiros de fúrias e raivas,
imolou-nos
no nosso próprio fogo doente,
sim,
no nosso fogo arrefecido
porém quente,
naquele fogo sitiado
porém nuclear, porém medonho,
porém de tentáculos ardentes,
porém insano,
imoral,
esse fogo que nos fez,
que nos criou,
do qual saímos sempre cinzas,
sim,
esse fogo doido,
esse fogo apagado
porém vivo,
esse fogo bandido,
mortífero,
que se emboscava
no ventre exaltado
das nossas memórias
por pagar.
Um de nós
desceu ao arquivo morto
dos nossos actos primordiais,
dos nossos desejos intactos,
e perfurou um a um,
ávido,
os olhos inocentes
de todos os nossos sonhos de amor.
Um de nós cegou-nos,
teve a piedade
de nos escurecer
a morte,
a visão arrasadora da nossa indignidade,
da nossa perfídia,
da nossa queda livre
no chão seco onde se esboroam
os amantes que traem as suas almas.
Um de nós,
meu amor,
varreu-nos da história,
dissolveu-nos no nada,
devolveu-nos àquele lugar sagrado
onde, extremamente puros,
nunca existimos.
Por isso, meu amor,
um de nós,
hoje,
matou-nos.
Devíamos talvez ter adormecido um no outro, e enquanto dormíssemos, enquanto fôssemos inócuos, deixássemos que o tempo se esvaísse de nós. Porque passavas a vida a morrer-me, habituei-me a amar os teus longes olhos imersos nas trevas, enquanto assistíamos, quietos, ilúcidos, ao cortejo fúnebre do nosso amor. Devíamos talvez ter morrido um no outro, e enquanto morrêssemos, enquanto fôssemos cadáveres, deixássemos que o tempo se arrependesse de nós. Porque passava a vida a amar-te a morte, tu criaste o hábito de não me existires, serenamente dissimulada, enquanto assistíamos, quietos, ilúcidos, ao cortejo fúnebre do nosso amor. Devíamos talvez ter crescido um no outro, e enquanto crescêssemos, enquanto fôssemos vingando, deixássemos que o tempo tomasse conta de nós.
Dir-te-ia
que me levasses daqui
para longe, tão longe de ti,
se eu não fugisse de mim
para perto, tão perto daqui.
(Que nestas manhãs acordadas cedo
te ausentas do meu poema
e do meu corpo
para longe, tão longe
dos lugares comuns
ao nosso amor.)
Naquele tempo, os teus lábios frequentavam os meus beijos e éramos serpentinos, longos, intermináveis. Lembro-me às vezes de como te sabias minha, tão só minha como a pele dos meus lábios frequentes nos teus beijos. Naquele tempo, lembro-me às vezes, o desejo exilava-se nas metástases do nosso amor e era um passageiro frequente dos teus lábios nos meus beijos serpentinos, longos, intermináveis. Ah, como te sabias minha naquele tempo em que os teus lábios frequentavam as metástases do nosso amor. Ah, como morreram, frequentes, os teus lábios nos meus beijos. Como morreram longos e serpentinos, longos e intermináveis, naquele tempo.
Deseja-me,
podes estender os teus longos abraços de fogo,
mulher,
até onde me ardas,
até onde me sejas um inferno,
um pecado mortal,
até onde tomes posse
do meu corpo quente,
ah, tão quente,
até onde me fervas o sangue
e as vísceras
e os ossos se derretam e extingam
no teu vórtice ardente,
até onde me saibas ao fim dos tempos,
até ao cair incendiado do último sol,
até onde o próprio deus
não ouse compadecer-se de nós.
Deseja-me, mulher,
mas não te insistas em mim.
Não te repitas em mim.
Não ecoes em mim.
Deseja-me como uma lâmina no ventre,
como uma ferida aberta,
como uma fúria aberta,
deseja-me lenta, voraz, desperta,
deseja-me atenta ou distraída de mim,
mas não me repitas,
mulher,
não te insistas,
mulher,
deseja-me uma vez,
uma única vez,
deseja-me com um amor sem réplicas,
uma vez só: e depois foge,
e depois corre
com os teus passos mais rápidos de correr,
foge com o teu medo
nos passos do teu instinto,
não me repitas,
não me insistas,
não ecoes em mim,
porque eu não quero,
eu não quero pensar em ti
como se fosses minha,
mulher.
Tenho o mau hábito de te amar
na luxúria dos meus dedos,
assim lento, lento, lento,
como se o nosso prazer não tivesse um estuário
e o nosso amor,
esse amor desse prazer desses dedos,
fosse a ecografia de um nado-morto.
Devíamos talvez ter adormecido um no outro,
e enquanto dormíssemos,
enquanto fôssemos inócuos,
deixássemos que o tempo
se esvaísse de nós.
Porque passavas a vida a morrer-me,
habituei-me a amar os teus longes olhos
imersos nas trevas,
enquanto assistíamos,
quietos, ilúcidos,
ao cortejo fúnebre do nosso amor.
Devíamos talvez ter morrido um no outro,
e enquanto morrêssemos,
enquanto fôssemos cadáveres,
deixássemos que o tempo
se arrependesse de nós.
Porque passava a vida a amar-te a morte,
tu criaste o hábito de não me existires,
serenamente dissimulada,
enquanto assistíamos,
quietos, ilúcidos,
ao cortejo fúnebre do nosso amor.
Devíamos talvez ter mirrado um no outro,
e enquanto mirrássemos,
enquanto fôssemos esvanecendo,
deixássemos que o tempo
existisse sem nós.